Controle ou seja controlado
Ctrl-V :: VideoControl, o webdocumentário, talvez seja a parte mais importante da pesquisa, justamente por agregar todos os elementos, tanto de conteúdo quanto de forma, do experimento. Pensado para nascer e crescer dentro do ambiente da convergência digital, o webdoc traz elementos de linguagem que não se restrigem a um produto linear a ser apresentado numa sala escura, embora também abrigue essa possibilidade.
A lógica do Ctrl-V é a de rede. Ele não existe sem o diálogo com blog, Facebook, Twitter, Vimeo e Youtube, elementos cada vez mais explorados pela grande indústria cinematográfica e também por produtores independentes e autônomos. A distância entre os modos de produção nunca foi tão próxima entre um realizador de cinema de Hollywood e um aspirante a cineasta que domina as linguagens da web.
O webdoc foi todo gravado com uma câmera fotogrática digital com a função video. Uma dessas, disponível em qualquer shopping ou casa de eltrodomésticos. Venho fazendo experimentos com esse tipo de câmera desde o final de 2005, quando descobri esta função em minha câmera de 4 megapixels comprada numa viagem à China.
Fiz um pequeno caderno videográfico de viagem, em parceria com André Martinez, sobre Dakar e a ilha de Gorée, no Senegal, onde fui para uma conferência sobre diversidade cultural. Enorme surpresa foi o resultado de sua postagem no Youtube. Uma audiência de 8 mil acessos em apenas um dia me fez despertar para o potencial desse tipo de produção, não apenas como linguagem, mas também como processo de produção e distribuição.
Depois daquilo fizemos vários experimentos, sobretudo documentando cenas cotidianas, processos criativos de artistas, entre outras brincadeiras. A pesquisa em torno da democracia audiovisual, como tema predominante na discussão sobre diversidade cultural empolgava cada vez mais. Ctrl-V, que nasceu com o nome Te Están Grabando, veio como uma convergência desses processos: o político, o conceitual e o de linguagem cinematográfica aplicada às novas mídias.
Ctrl-V nasceu junto com a RAIA – Red Audiovisual Iberoamericana, uma comunidade interessada em ampliar e qualificar a discussão sobre a influência do audiovisual e os efeitos da indústria de Hollywood em nossa sociedade. E tronou-se uma espécie de videomanifesto da rede, justamente por abrigar as angústias e necessidades de discussão de muitos profissionais ibero-americanos.
Divido em três partes, o webdoc contém uma extensa documentação disponível em uma plataforma web agregadora de conteúdos, ctrl-v.net, que revela o processo de criação e evolução da proposta. A ideia é explorar as potencialidades da Internet e suas redes para realizar e difundir conteúdos audiovisuais. O experimento busca colocar à prova todas as possibilidades que as novas tecnologias nos disponibilizam.
Para dialogar com a lógica de construção do ambiente simbólico, de dominação e poder dessas indústrias, utilizamos imagens geradas em Hollywood para enfatizar ou criar contraponto. Acrescentamos a esta pesquisa uma nova safra de documentários independentes que denunciam os sistemas de poder, como é o caso de Zeitgeist e The Corporation, entre muitos outros selecionados em nossa fpesquisa filmográfica.
A primeira parte de Ctrl-V trata do nascimento de Hollywood, sua relação com o Estado norte-americano e a formação de um cartel internacional que se apodera dos mercados locais amparado por uma política internacional baseada no intervencionismo simbólico.
A segunda parte trata dos efeitos da indústria dominante sobre as culturas locais e busca alternativas, a partir da formação de um território ibero-americano, de resistência audiovisual, por força de políticas de Estado, de movimentos sociais e de formação de um mercado comum.
Por fim, apresenta a luta da diversidade cultural, que resultou na aprovação da Convenção da UNESCO sobre o assunto, e alerta para os riscos de uma provável ampliação deste cartel ao ambiente web e suas corporações. Os riscos para a democracia, a cultura livre e a diversidade cultural são iminentes. E a questão da Cultura da Convergência, que dá a liga para todos os temas discutidos no webdoc e levanta alternativas para a democracia audiovisual.
A intenção é fomentar o debate e construir, com a participação livre e colaborativa dos membros da RAIA (www.raiavirtual.net), o processo de pesquisa e edição que se consolidará em um longa-metragem de aproximadamente 70 minutos.
Ctrl-V :: VideoControl, cuja primeira parte entregamos agora à sociedade, contou com o apoio da Agência Espanhola de Cooperação Internacional para o Desenvolvimento – AECID e inúmeros pesquisadores e profissionais envolvidos com o tema, além da participação ativa da equipe do Divercult e dos membro da RAIA.
O momento de articulação em torno dos direitos culturais é agora. Controle ou seja controlado!
Leonardo Brant, diretor