Experimento transmídia
Ctrl-V::VideoControl é uma pesquisa sobre a sociedade videocrática atual. A partir de uma análise histórica da formação dos grandes conglomerados de mídia e sua relação com o Estado norte-americano, enfrentamos o difícil desafio de levantar as implicações possíveis das novas configurações do mercado global, bem como suas conseqüências nas culturas locais, a partir do fenômeno da convergência digital.
Um experimento transmídia, que se manifesta em livro, webdocumentário, redes sociais e uma plataforma de agregação desses conteúdos, que direciona os interessados para os diversos formatos disponíveis na rede mundial de computadores.
Os fins e os meios
Ctrl-V é uma pesquisa-ação. Seu ponto de partida coincide com o nosso envolvimento nas lutas internacionais em torno da Convenção Internacional, no âmbito da UNESCO, para promoção e proteção da diversidade cultural.
Me envolvi com um grupo de ativistas e organizações da Rede Internacional pela Diversidade Cultural (RIDC) em 2002, numa conferência na Cidade do Cabo, na África do Sul. Dali em diante, o tema passou a direcionar todos os esforços de minha pesquisa na área cultural.
Desde então, participei ativamente da Rede e das discussões em torno do tema, em conferências, reuniões internacionais, articulações com governos e com organismos internacionais, como a própria UNESCO.
O Brasil teve participação destacada nesse processo, sobretudo pela presença ativa de Gilberto Gil, músico e compositor que ocupou o Ministério da Cultura neste período, com quem colaborei ativamente, pelo lado da sociedade civil. Estivemos, cada qual com a sua função, em diversas dessas conferências, como na Croácia, Senegal, China e, por fim, no Brasil, em 2006, quando o ministro organizou a conferência pelo lado dos governos e eu pelo lado da sociedade civil. Na época eu ocupava a vice-presidência da RIDC.
A Convenção da UNESCO acabara de ser aprovada, com uma votação inédita e avassaladora. Estados Unidos e Israel foram os únicos países contra a convenção. Durante todo o processo de negociação, o país liderado por George W. Bush pressionou fortemente todas as delegações, tentando dissuadir os Estados-membros aliados a deliberarem a favor do documento.
Esse processo todo revela para mim a importância estratégica do mercado internacional de audiovisual para a consolidação dos EUA como potência mundial. A partir dali fiz um mergulho profundo nos processos históricos que permitiram o domínio absoluto das chamadas majors norte-americanas deste mercado, e suas relações diretas com as políticas internacionais e o grande capital internacional.
A leitura crítica da Convenção é imprescindível para compreender as motivações de Ctrl-V. O relatório do PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento) de 2004, intitulado Liberdade Cultural num mundo diversificado, também ajuda a revela as bases políticas que justificam uma intervenção dos organismos internacionais no campo do audiovisual.
Os caminhos teóricos deixados pela Escola de Frankfurt a respeito dos riscos e implicações de uma nova indústria cultural, em plena ascensão naquela época, e a profunda alteração nos sentidos e significados da arte, a partir de sua dimensão mercadológica, além do que Walter Benjamin denominava de era da reprodutibilidade técnica da obra de arte. Assim começa a nossa investigação teórica.

A influência de Marshall McLuhan, ainda na universidade, foi preponderante para a compreensão da complexidade e da onipresença dos processos midiático em nosso cotidiano. Reli e ressignifiquei Undestanding Media, ainda uma espécie de livro de cabeceira durante todo o período de leituras relacionadas ao Ctrl-V. A Sociedade do Espetáculo denunciada por Guy Debord é outra dessas publicações, que nos deram o norte necessário em direção àquilo que procurávamos. Fui igualmente influenciado por diversos autores dedicados ao tema da pós-(híper-líquida)modernidade, como Zygmunt Balman, Stuart Hall e Gilles Lipovetsky, de quem falarei adiante.
Durante a busca em relação à diversidade cultural, resolvi empreender uma organização cultural no Brasil, para desenvolver esta importante agenda política, nas mais diversas esferas da sociedade. O Divercult cumpriu seu papel internamente, até que, em 2007, com a publicação da Convenção, estava pronto para novos desafios.
Foi aí que entrou Fernanda Martins, com uma bagagem de pesquisas e inquietações a respeito do tema. E ideias sobre cooperação internacional para a diversidade. Resolvemos levar o Divercult para a Espanha, uma excelente porta de entrada para a Europa, que começava a implementar iniciativas voltadas para o assunto.


Além de conferências, debates e pesquisas sobre diversidade cultural, o Divercult encampou, em parceria com o Instituto Pensarte, a publicação de uma coleção de livros que constitui o pontapé inicial para a pesquisa do Ctrl-V. A série Democracia Cultural traz o primeiro livro brasileiro sobre Diversidade Cultural, organizado por mim, com textos de ativistas e pensadores de todos os continentes. Consolidamos, logo em seguida, uma pesquisa sobre Democracia Audiovisual, assinada por André Martinez. E por último, a tradução para o português do livro Artes Sob Pressão, de Joost Smiers, amigo de jornadas pela diversidade cultural.
Mas foi numa visita casual à Livraria da Vila, na Vila Madalena, em companhia do antropólogo Massimo Canevacci, colaborador de primeira hora de Ctrl-V, que descobri o livro O Grande Filme, de Edward Jay Epstein. A partir dele comecei a visualizar, mais concretamente, um roteiro para o filme.
Fiz conexão automática daquela publicação com Vida: o Filme, de Neal Gabler, cuja leitura no passado marcou-me profundamente. Mais tarde, depois de entrevistá-lo nos Estados Unidos, tive contato com The Empire of Their Own, sobre os primórdios de Hollywood.
Nesta fase da pesquisa já tínhamos, eu e Fernanda, uma nova aliada. Roberta Milward foi fundamental para trazer novas referências e buscar outros pesquisadores, relevantes à pesquisa.
Algumas leituras foram importantíssimas para abrirmos janelas e compreendermos o nosso trabalho como uma mera continuidade de movimentos do passado. Resolvemos, por influência de Daniel Gonzalez, um generoso colaborador de todo o processo, viajar a Argentina para entrevistar alguns pensadores, entre eles Octavio Getino, o mais importante pensador de políticas ibero-americanas para o audiovisual. Seu livro, Cine Iberoamericano: los desafíos del nuevo siglo é fundamental na composição do nosso tabuleiro de xadrez.
Estava em pleno processo de edição da primeira parte do webdocumentário quando descobri Tela Global, de Gilles Lipovetsky, e percebi a importância do livro para definir abordagens e até mesmo a linguagem adotada no filme, com referências filmográficas e quebras de preconceitos a respeito da capacidade de autocrítica de Hollywood, além das inúmeras proposições teóricas a sobre a relação intrínseca do cidadão global com as novas redes e telas.
Não posso deixar de citar as inúmeras influências absorvidas do meu cotidiano como pesquisador de políticas culturais e sua relação com o audiovisual, a mídia e os sistemas de poder. Cidadania Cultural e Simulacro e Poder, ambas de Marilena Chauí, são bons exemplos disso. Simulacro e Simulação, de Jean Baudrillard, dentre as referências, talvez seja a mais marcante.
A última parte da investigação é destinada aos fenômenos contemporâneos, aos novos comportamentos gerados a partir das redes sociais e à multiplicação de telas, em movimentos que nos assaltam, seduzem e hipnotizam diariamente. Todas as possibilidades levantadas por Cibercultura, de Pierre Lévy foram consideradas, além das novas formas de relação com a propriedade intelectual abordadas em Free Culture, por Lawrence Lessig.
Mais do que referências teóricas, esses livros nos ajudaram a moldar o processo participativo, a constituição de uma comunidade de conhecimento em torno dos desafios do audiovisual em nossa sociedade. Foi assim que surgiu a RAIA (Rede Audiovisual Ibero-americana), com diálogos, trocas de experiência e propostas concretas de cooperação, tão importantes para a constituição de Ctrl-V quanto a bagagem trazida das leituras e estudos.
Nesse sentido, nada mais relevante que A Cauda Longa, de Chris Anderson, Cultura da Convergência, de Henry Jenkins, e Youtube e a revolução digital, de Jean Burgess e Joshua Green. Incentivadores de uma nova maneira de enxergar a relação entre grande mídia e processos participativos do novo milênio, tornaram-se contribuições valiosíssimas, impulsionadas pelo diálogo e colaboração de um novo membro da equipe de pesquisa de Ctrl-V: Ricardo Giassetti.
Responsável pela edição de todo o material informativo, pesquisa e textos produzidos no período da pesquisa para o suporte livro, Giassetti vem contribuindo para visualizar as novas possibilidades de produção, além dos modelos tradicionais da velha mídia. O mercado alternativo e independente ainda carece de fórmulas, modelos de negócio e casos concretos de geração de mercados e sustentabilidade para artistas e os novos produtores de conteúdo da web 2.0.
O livro Ctrl-V::VideoControl encerra este ciclo de recomendações bibliográficas, que procurei contextualizar no âmbito de leituras para os interessados em mergulhar no universo pesquisado por nós.
Redes e Telas
A experiência de “filmar” com máquinas fotográficas digitais começou, para mim, no final de 2005. Fui para Dakar, no Senegal, em companhia de Fábio Cesnik e André Martinez. O motivo da viagem foi a Conferência Anual da Rede Internacional pela Diversidade Cultural – RIDC. Eu e Martinez participamos de uma mesa sobre democracia audiovisual.
Resolvemos passar um dia, ainda antes de começar a Conferência, na ilha de Gorée, um conhecido entreposto de comercialização de escravos africanos para toda a América. Eu e Fábio havíamos levado duas máquinas Canon portáteis, do mesmo modelo, de 4 megapixels. Ali descobrimos a função vídeo do equipamento e começamos a gravar, como crianças frente a um novo brinquedo.
Eu já havia trabalhado com vídeo, desde os 21 anos, em algumas produtoras de São Paulo, no Brasil. Cheguei a implementar, sob coordenação de Norma Kyriakos, uma TV interna na Procuradoria Geral do Estado de SP, com participação dos próprios profissionais da carreira. Mas desisti logo da carreira, pelo esquema de trabalho que me submeti naquela época, com noites em claro na ilha de edição, para realizar produtos audiovisuais pouco estimulantes, do ponto de vista criativo.
No quarto do hotel descobrimos, também de maneira inadvertidamente tardia, um editor de vídeo que veio com o sistema operacional. Ficamos umas 4 horas experimentando a ilha de edição, caseira e improvisada, e exibimos na mesma noite para alguns amigos, como Joost Smiers, Rafael Segovia e o cineasta brasileiro Joel Zito Araújo, também presente à conferência.
Fizemos uma conexão imediata daquele tipo de expressão com os movimentos pela diversidade cultural. Àquela altura já imaginávamos as possibilidades que as novas tecnologias da informação e comunicação nos ofereceriam num futuro próximo. Sentimos na pele a potência que uma câmera, um editor e um sistema de distribuição poderia dar ao cidadão comum.
O alerta constante que o exercício do ativismo cultural impõe tomou-nos de assalto. As possibilidades de controle aumentam proporcionalmente à capacidade de libertação. Prevíamos uma guerra política e de mercado em torno da informação e da propriedade intelectual. E ela se concretizou. Estamos no meio dessa batalha.
A maior descoberta de todas, e a mais estimulante, foi o YouTube. Retornando ao Brasil, publicamos despretensiosamente o filme Dakar, Gorée, uma mistura entre registro de viagem e experimento audiovisual amador. O vídeo obteve um volume impressionante de visualizações no site, chegando a ser pontuado como 3º mais acessado naquele dia, em todo o mundo, em sua categoria.
A partir daí não abandonamos os ciberfilmes, como chamávamos os experimentos audiovisuais com câmeras caseiras, ilhas de edição amadoras e distribuição em plataformas do it yourself, como YouTube ou Vimeo. Fiz, a partir daí, uma serie de experimentos e mini documentários. Alimentei durante um período um tipo de produção em ciberfilmes, que exigia gravação, edição e publicação no mesmo dia. Até que fui aos poucos deixando de gravar para me dedicar ao projeto Ctrl-V.
Passei a dedicar-me à pesquisa de novos equipamentos e possibilidades tecnológicas. Adquiri um novo equipamento, uma Canon G10, com uma definição de imagem um pouco melhor, recursos óticos e uma textura mais próxima da imagem cinematográfica, resguardando, no entanto, sua portabilidade e característica de câmera caseira.
Nesse ínterim realizamos o longa-metragem Os Quatro Elementos em Si ou O Guru Selvagem, documentário com Jorge Mautner e Nelson Jacobina, dirigido por Martinez. O primeiro ciberfilme a ocupar a grande tela na Mostra de Cinema de São Paulo, uma das mais importantes do Brasil.
Sem ter planejado, havíamos conseguido materializar o processo de convergência, mas de forma oposta às experiências conhecidas até então. Em vez de um filme pirateado nas telas da web, conseguimos desenvolver um produto genuinamente web para as telas de cinema.
Dessas experiências todas veio a inspiração para uma pesquisa-ação que envolvesse o audiovisual como tema e também como linguagem e suporte. Roberta Milward, coordenadora do Divercult no Brasil, havia cuidado conosco da pós-produção do Guru, o que nos colocava num estágio avançado em relação a esse complexo desafio.
Resolvida a questão do equipamento, veio a escolha da plataforma de edição. Por mais que nos identificássemos com os movimentos de software livre e todas as possibilidades de participação e efetivação de comunidades de conhecimento, fiquei com muito receio de nos perdermos nesse processo, já que nenhum de nós é ativista praticante dele. Definimo-nos como meros simpatizantes da causa.
Da turma toda, o Badah é o mais dedicado às pesquisas de softwares e plataformas web. Mesmo com sua ajuda, não conseguimos encontrar nenhum equipamento em plataforma PC, livre ou proprietário, que nos desse a segurança que o equipamento da Apple nos deu. Uma conversa com o amigo cineasta Luciano Cury foi definitiva para migrarmos definitivamente para o Mac.
Utilizamos o software I-movie, que vem instalado com o Mac, para as edições mais ligeiras, que alimentam o canal do YouTube e as publicações do videolog. E o FinalCut para a edição do webdoc.
A essa altura, o nosso processo já exigia um manejo mais profissional da ilha de edição. Por isso, convidamos Aion de Britto para nos auxiliar nessa tarefa. Aion colaborou de forma intensa e definitiva para a edição e finalização da primeira parte.
Durante o processo, soltamos algumas versões, experimentando o encadeamento temático e discursivo, além da linguagem, textura da imagem, cortes e vinhetagens. A RAIA – Rede Audiovisual Ibero-americana foi o ambiente ideal para trocas e construção colaborativa da primeira parte de Ctrl-V, já que o próprio projeto do webdoc nasceu ali.
A participação da Fernanda Martins, de Barcelona, nas decisões conceituais e de linguagem, por exemplo, só foi possível a partir dessa metodologia. Além do ambiente web, realizamos duas exibições com pessoas mais ligadas aos processos de construção do Ctrl-V, como Badah, Cleiton Paixão, Julio Cesar Pereira e Piatã Stklos Kignel.
Enquanto investíamos energia na edição da segunda parte, demo-nos com o maior dos desafios. Como publicar na web? Em quais plataformas e sites? Como lidar com as censuras e restrições impostas pelo formato e, sobretudo, pela utilização de imagens de grandes estúdios? Como difundir, dialogar, ativar as redes? Como viralizar uma pesquisa tão densa e cheia de elementos?
Tínhamos de estar preparados para uma batalha jurídica e ao mesmo tempo uma luta por ocupar espaços e dialogar dentro de regras já estabelecidas pelo uso e pelos padrões impostos pela grande mídia. A rede se contamina a cada dia com simulacros de processos de participativos, mascarados e forçados pelas majors.
Consideramos o Vimeo o melhor serviço de difusão para materiais como o nosso. Por isso, fizemos questão de divulgá-lo prioritariamente. Mas não deixamos de utilizar outros serviços similares, como o próprio YouTube.
Também apanhamos um pouco para fazer o torrent funcionar, com sementes espalhadas por alguns lugares ao redor do mundo. Algo que vai se consolidando aos poucos. Assim como as redes sociais. Facebook, Twitter, MySpace e meus blogs pessoais foram laboratório para divulgação de trechos de entrevistas e pílulas de discussões, publicadas para ampliar a percepção da pesquisa e dialogar com as novas linguagens.
Abrimos contas específicas do Ctrl-V nessas redes. A partir daí começam a funcionar como espaços emanadores de discussões, em sintonia com fóruns e mostras presenciais. O principal objetivo da pesquisa, que é provocar discussões sobre o tema, pode se efetivar nesses territórios de conversação.
Bem-vindos ao Ctrl-V. Suas ideias, contribuições e discussões são muito bem vindas. Associe-se à RAIA e faça parte dessa comunidade de sentido.
Leonardo Brant
